A onda de concreto

Acordava todos os dias balançando o corpo de um lado para o outro em um ritmo ora de maré baixa ora de mar com ressaca. Tudo dependia do sonho que havia tido. Se os lençóis estivessem muito embolados, sabia que as imagens produzidas pelo seu inconsciente enquanto dormia haviam sido impregnadas de angústia. Quando a cama estava em ordem, com quase nada remexido, havia sonhado com coisas que lembravam sua infância. Só não conseguia se lembrar sobre o que sonhara. Lembrar era o verbo que sua memória não conseguia mais conjugar. Por isso, tinha tudo anotado em um papel que andava com ele no bolso da camisa que um dia foi branca. Ao acordar, a mesma pergunta se levantava junto com ele: que dia é hoje?


Se levantava, lavava o rosto e se vestia. O papel novamente caía no chão úmido do banheiro. "Você se chama Jonas e perdeu a memória depois de um acidente no mar. Ninguém sabe o que aconteceu com você. Outros pescadores o resgataram e conseguimos dinheiro para o seu tratamento em São Paulo. Você ficará até o dia 8 de dezembro de 1997. Olhe todos os dias o calendário que está na mala. Diariamente, você pegará a linha quatro do metrô até a Estação República e seguirá até o número 318 da Avenida Ipiranga. O Doutor Edgar estará esperando por você às quintas-feiras, sempre às nove da manhã. Não se atrase." Naquele dia, atrasou. Naquele dia, que ele não sabia qual era, mudou o rumo da própria memória. Naquele dia, reparou que a poucos metros da clínica onde o doutor esperava por ele, havia uma onda de concreto no meio dos prédios retos e sem graça.


Onda, onda, onda, a palavra se repetia seguidamente, tal como no mar. Viu a onda erguida de concreto, com milhares de janelas de vidro espelhando a cidade ao redor. Seguiu a onda. Deu três voltas no edifício de nome Copan, que era projeto de um arquiteto famoso, ficou sabendo. Onda, onda. Sua cabeça, seu corpo, tudo mareava cada vez que mirava o alto do prédio. Onda. Era isso. O barco, o balanço, a onda. Era exatamente daquele tamanho a onda que havia virado seu barco. Foi tudo que conseguiu lembrar. Resolveu que todos os dias era para aquele lugar com nome de Copan – anotou no papel – que faria seu tratamento, sem nenhum doutor. Experimentou uma sensação de confiança e teve coragem para entrar no café no térreo do prédio onda. Observou o modo daquelas pessoas, com pressa e com um vocabulário próprio para se referir às coisas. Depois de algum tempo, tomou coragem: – Moço, me vê um pingado. Anotou no papel: hoje foi o dia que tomei um café de nome engraçado.







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