Sonho de bicicleta


Suas vontades eram as mais simples, e ainda assim não conseguia entender porque era tão difícil realizá-las. Sonhava em ter uma bicicleta para andar nas tardes de domingo, quando fazia sol. Domingos assim deixavam-na mais triste que domingos de chuva. Era o dia em que sentia inveja. Olhava as praças, via mães, filhos e maridos saudáveis vivendo o domingo da forma como sempre quis. Perguntava-se porque não podia viver também.

Era doído ver o sol que entrecortava as folhas formando desenhos dançantes nas calçadas. Só de ouvir o som das risadinhas de crianças sentia vontade de chorar. Meninas magras com suas roupas esportivas cortavam o vento, seus cabelos se enrolavam na sua melancolia. Não parava de se perguntar porque todas aquelas cenas incomodavam tanto. Por que ela não conseguia fazer parte daquele ambiente?


Tinha filhos, marido e dinheiro para comprar uma bicicleta, mas sabia que aquele mundo não era para ela. Se comprasse a bicicleta certamente iria empatar um dinheiro para ficar na garagem servindo de abrigo para casa de aranha. Um domingo ensolarado numa tarde de inverno era, definitivamente, o pior dia que poderia existir. Ligou a TV, jogou-se no sofá e esperou ansiosamente a segunda-feira.



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