O dia em que encolhi

Atualizado: 24 de Jul de 2019



A data, não sei bem ao certo. E, para ser mais precisa, foram dias, a soma de muitos. Daqui onde estou agora, me vejo lá trás muito maior e muito melhor do que hoje. Eu era grande. Eu sabia me projetar. Era como criança que anda de bicicleta sem as mãos, que corre em cima do trilho do trem, que salta um muro sem o medo do que tem do outro lado. Eu era. O que exatamente me encolheu, não sei dizer. Sei o que hoje sinto: fui me achatando, indo em direção ao chão.


Tudo que eu achava que sabia, perdi pelo caminho enquanto me reduzia a uma sombra sem voz. Olha, moço, eu era porreta. Era igual aquela frase bonita: tenho em mim todos os sonhos do mundo. Eu tinha. Hoje, eu apenas acordo para esperar a hora de dormir novamente. O sono se tornou meu lugar mais seguro. Cerro os olhos e os dentes, mais os dentes, que estão ficando gastos dessa rotina. Me colocaram um aparelho neles pra ver se pelo menos pros dentes existe conserto. O sorriso, de amarelo, agora ganhou um brilho metal.


Depressão, apatia, síndrome disso e daquilo, mania de se vitimizar. Coloque a etiqueta que tu quiseres pendurar em mim. Hoje, todas me servem. E quanto mais você insiste em me taxar, menos eu consigo ver uma saída desse mundo diminuto que me consome do café da manhã até a hora do jantar. Ninguém deseja estar assim. A gente simplesmente cai nesse buraco fundo e escuro e não acha a saída. Seu conselho não serve, muita obrigada. Vem cá, fica aqui do meu lado um pouco. Porque aí de cima o que sinto é o medo da sua sombra que me julga.



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© 2017 By Elisa Quadros. Foto: Leandro Queiroz/Shutterstock

Elisa Quadros

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