O caminho de volta


Minha relação com a hierarquia nem sempre foi positiva. Fui uma criança teimosa e fiz coisas escondidas dos meus pais. Fui uma aluna que, quando não gostava do professor, resolvia desafiar ou até mesmo debochar. Entretanto, o nível dessas atitudes não eram tão dignas de atenção e passaram despercebidas, foram relevadas. Não era coisa para uma intervenção mais drástica com tratamentos, remédios, assistência ou punição. Mas foram significativas para mim.


Levei isso, em algum lugar escondido, para a vida adulta. Nos meus primeiros empregos, fui pouco diplomática com meus chefes. Os via, talvez, da mesma maneira como via meus pais ou professores: alguém me dando ordens que nem sempre eu concordava. E, ironicamente, foi minha teimosia, minha insistência (não confundir com persistência), que me ajudaram a ganhar um prêmio significativo para o meu início de carreira.


Isso cristalizou em mim uma certeza torta, de que teria que fazer valer meu ponto de vista a qualquer custo – e geralmente sem muita diplomacia. E mesmo acreditando e recebendo prêmios ou elogios pelo que eu fazia e conquistava, perdi alguns empregos. Desconhecia por completo o que significava o que hoje chamam de inteligência emocional. Ou, como dizia minha vó, temperamento adequado.


Quando fui sócia de uma agência, esse comportamento foi ainda mais intenso. À parte todas as dificuldades que tive na relações com meus sócios na época, sei que tudo poderia ter sido melhor se eu tivesse conduzido as tretas e trapalhadas que tivemos em comum com mais sabedoria, com um entendimento maior. Custei alguns bons anos a perceber que sim, muita coisa é nossa responsabilidade. Ou permitimos ou não temos a consciência nem os recursos necessários para lidar com a situação que vivemos. Nos fazemos de vítimas, buscamos culpados fora de nós, geramos o caos a nossa volta.


Agora some a esse comportamento uma série de perdas que foram aparecendo no meio do caminho: meu irmão, minha mãe, a sociedade da qual fazia parte, alguns empregos, a melhor amiga que foi morar em outro estado, alguns casamentos, e a que considero mais grave, a autoconfiança - muita coisa desandou pra mim. Muita mesmo. Encarnei o avestruz e tudo que eu mais queria era enfiar a cabeça debaixo da terra. Ao mesmo tempo tentava sem nenhum sucesso provar que eu era capaz de ser boa em alguma coisa.


Não tinha como ser. Não estando devastada como eu estava por dentro. Não sem reconhecer que estava vivendo uma depressão com uma face sorrateira, disfarçada, que me paralisava mas também me fazia ir para a beira do abismo. E meu abismo foi tentar ser algo que eu não sou. Pelo menos não na condição que eu me encontrava. Não sou competitiva o suficiente para enfrentar desafios que irão deixar para trás algumas pessoas, não sei ser rígida demais com funcionários que faltaram, que erraram. Não sou agressiva para tentar fechar uma negociação e colocar a faca no pescoço do cliente. E, acima de tudo, tinha mais dúvidas do que certezas a respeito da minha capacidade.


Agora como dizer tudo isso em um ambiente corporativo? Como dizer para as pessoas: eu preciso do seu apoio, não do seu olhar recriminador. Porque eu preciso desse emprego não apenas para pagar minhas contas, mas para resgatar minha autoestima. Porque meu trabalho faz parte da minha identidade. E ela está em pedaços. Fiz a minha parte ao buscar terapia, me cuidar, fazer todo e qualquer tratamento que me recomendaram. Mas o rombo estava maior do que eu imaginava.


Desconheço empresas onde exista uma cultura que tem como base afeto e acolhimento.  E quando olhamos os números de pessoas deprimidas, a quantidade de gente que toma antidepressivos, realmente me pergunto se isso está certo. Cada um de nós sente e manifesta a dor de maneira diferente. Somos feitos de materiais diversos e se em muitos momentos eu fui conhecida por alguém forte, que batalhou sozinha, que conquistou tudo por meio do trabalho, nos últimos tempos isso deixou de ser verdade.


Resolvi driblar minha paralisia voltando ao ponto de partida. Ao básico. Onde tudo começou. Me volto hoje para o ofício da escrita, pura e simples. Escrever me abriu portas e me ofereceu caminhos. E percorri muitos deles com segurança e orgulho. Quero voltar a esse lugar onde já estive por tantas vezes. Escrever esse texto é a prova dessa vontade.




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© 2017 By Elisa Quadros. Foto: Leandro Queiroz/Shutterstock

Elisa Quadros

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