Imaginado



Hoje passei o dia olhando pra você. Mesmo nos momentos em que você não estava na minha frente. Construí cada pedaço seu, de dedo a umbigo, de nariz a tornozelo, de cabelo a panturrilha. Meu mal é inventar paixões platônicas; e essa agora — muito perfeita, muito direita, muito real. Penso, sonho, sinto, vivo com você aqui, no meio de todos meus pensamentos, dos mais nobres aos mais profanos.

Profano, não. Ainda não cheguei lá. Sinto o amor romântico, apenas, com todos os sintomas: frio na barriga, tremor, vergonha e de repente fico muda. Seria melhor virar puta. É você passar pra eu esquecer todo o repertório que passei por horas, tudo some, os músculos se paralisam, parece que tenho 12 anos. Só com uma diferença: com 12 anos já teria ido até você e falado todas essas coisas. Entendeu por que seria melhor eu virar puta? Toda essa agonia iria acabar no primeiro motel vagabundo, na primeira luz de néon piscando na beira do asfalto.

Preciso dizer o quanto você me faz bem. Melhora o meu humor, me faz ter vontade de emagrecer, de passar sombra nos olhos, de comprar vestidos, de viajar. Me coloca sorriso nos lábios e acelera minha pulsação. Vou amar você assim, sem ciúmes, sem cobranças, sem jogos, sem choro. Este último guardo só pra mim, sufocado, dissecado, suprimido para que você não saiba que mesmo este amor, que só existe em mim, também faz doer.

Não quero que você saiba de mim mais do que imagina. Não quero dividir com você minha solidão nem tampouco quero a sua. Juntar duas solidões não é amar. Amar sozinho também não. Como não tenho escolhas não quero que você as tenha também. Viu como sou egoísta? Por favor, não veja mais nada. Tudo isso vai terminar exatamente como começou. Assim que eu conseguir domar meu coração que me desobedece toda vez que vejo você.

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© 2017 By Elisa Quadros. Foto: Leandro Queiroz/Shutterstock

Elisa Quadros

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