Fechem as janelas



Que dia mais estranho, pensou. Viu que a Lua quase queimava o mar de tão amarela. Era novembro, mês em que lembrava de dores fundas. Uma demissão, uma traição, uma morte. Desejou ser outra por um dia. Queria ser irresponsável, abusada e folgada. Pensou em ter alguém pra sugar, queria parasitar na felicidade de alguém, na grana de alguém. Queria mandar quem mandava nela tomar no cu, ir pra putaquepariu. E queria achar graça disso.

Queria não reclamar e queria saber escrever. Escrever bonito, para quem era espelho pra ela: Guimarães, Drummond, Gabriel, Lygia. Quando viu a Lua queimando o mar, quis sentar no café ao lado e escrever, ler e fumar, mesmo sabendo que não fumava. De alguma forma, hoje precisava transgredir. Trair, seduzir, fumar, errar, magoar. Tudo isso despertou nela uma fome sem controle – não, o nome disso não era fome. Aí entendeu porque algumas pessoas não emagreciam. Mas naquele momento queria não entender, queria sofrer e fazer sofrer com seu egoísmo.

“Onde é a saída? De onde saíram esses pensamentos?” Teve vontade de morrer só por um dia. Distribuiu suas farpas nela mesma. Agora chorava. “Onde fecho essa porta?” Quis ser fútil, ser loira e gostosa, ser invejosa e burra. Queria querer só uma bolsa Fendi que o dinheiro compra. Amor, amigo, paz, sucesso, aposentadoria de nada iam valer naquele momento. Música, sexo, cerveja e gargalhada. Nem nisso conseguia pensar quando abria a maldita janela da depressão.

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© 2017 By Elisa Quadros. Foto: Leandro Queiroz/Shutterstock

Elisa Quadros

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