Espinhos para a vida



Comprei dez cactos para enfeitar minha janela. Muito bonitinhos, cada um de um jeito, fofos mesmo. Fiquei bastante feliz por comprá-los, estava recém-separada, indo morar com meu filho de um ano em um apartamento simples e, como descobri mais tarde, muito quente. Mas, ainda assim, representava uma conquista, uma nova etapa na minha vida, um passo dado – tanto o apartamento quanto a coleção de cactos. Enquanto a vida passava, os cactos se mantinham ali na janela, uns bem, outros nem tanto. A vida passava pra mim também.

Dois cactos morreram na mesma semana. Fui demitida de um emprego, sete meses depois minha querida vó morreu - meu irmão se foi um ano antes. Fique com oito cactos. Fui para um novo emprego, que me deu muita experiência, meus primeiros prêmios e a maturidade que hoje me faz entender que poderia ter aproveitado aquela época melhor.

Sobraram dois cactos, a janela agora é uma varanda. Me mudei novamente, agora para meu próprio apartamento, graças ao meu pai. Apenas um cacto foi comigo. Fui demitida mais uma vez, tive problemas de sobra, alguns ainda não estão totalmente resolvidos, pelo menos não dentro da minha cabeça. Não corro mais o risco de ser demitida. Troquei-o pelo risco de falir. Da minha varanda vejo o mar, o apartamento é bastante arejado. Posso dizer que agora está tudo melhor. O último cacto ainda está comigo. Nós sobrevivemos, mesmo com todos os espinhos.

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© 2017 By Elisa Quadros. Foto: Leandro Queiroz/Shutterstock

Elisa Quadros

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