Dia das Mães

Atualizado: Set 19



Na escola, nos mandaram fazer um desenho. Uma pintura em cima de um azulejo muito branco. Eu não sei desenhar, pensei baixinho. O meu vai ficar feio. Minhas bochechas mudaram de cor e agora ardiam. A professora não se importou: faça, é para sua mãe. Levei para casa o azulejo pintado que ficaria escondido até o domingo chegar.


Até o domingo chegar era um tempo sem fim. Minha barriga doía. Comi parte de uma unha. Mãe, posso brincar na rua? Não, você tirou nota baixa em Matemática. Um metal gelado correu no lugar do meu sangue. As lágrimas saltaram sem obedecerem minha vontade de segurá-las no canto do olho. Pedi mais uma vez porque precisava sair de casa e parar de pensar no maldito azulejo.


Queria entregar logo de uma vez o presente feito por mim e pela minha vergonha. Queria que ela pudesse ver pelo menos um esforço e, quem sabe, alguma beleza naquilo que virara objeto da minha angústia. Não, já disse. Você não consegue entender? Ouvi essa pergunta enquanto esperneava e fazia do choro minha principal estratégia de convencimento. Nenhum efeito. Já para o seu quarto. No quarto, não. O azulejo está lá, eu queria entregar hoje para você gostar de mim e me deixar sair, mas só posso entregar no domingo, a professora falou.


Queria dar seu presente agora mesmo para você sentir orgulho das coisas que faço, para tirar de mim esse peso da incompetência. Mas eu não sabia falar essas coisas. Eu só sabia sentir. E sem pensar, um erro que cometo até hoje, peguei o presente do dia das mães e o transformei em milhões de pedaços. Ficou mais fácil suportar o castigo. Alívio, eu aprendi mais tarde. Foi o que senti.

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© 2017 By Elisa Quadros. Foto: Leandro Queiroz/Shutterstock

Elisa Quadros

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